Coleção Documentos Históricos

 

No ano de 1976, foi criado o Centro de Documentação e Informação Histórica (CDIH) da Universidade Federal do Acre (UFAC), com um acervo doado por diferentes homens e mulheres da vida pública acreana e, posteriormente, também com acervos resultantes de pesquisas ou doações do corpo docente desta instituição de ensino. Esse Centro de Documentação apareceu ao público acreano num momento em que as pesquisas com fontes documentais, em particular, sobre a história do Brasil, ainda, eram bastante incipientes mesmo nas grandes capitais do “centro-sul” brasileiro. Naquele período, conhecido como os “anos de chumbo”, começava a surgir centros de documentação que, hoje, são considerados como as mais expressivas referências para a pesquisa documental, em âmbito nacional, como o Centro de Pesquisa e Documentação (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas, no Estado do Rio de Janeiro e o Centro de Documentação Edgard Leuenroth da Universidade de Campinas, no Estado de São Paulo.
Em 1987, onze anos após sua criação, resultado das discussões e decisões estabelecidas no processo de “Modernização Administrativa” da UFAC, o CDIH foi incorporado e passou a figurar no Organograma da instituição, vinculado à reitoria, posto que, até então, tinha sido relegado ao descaso e esquecimento, não obstante aos esforços e dedicação daqueles que se revezavam em sua administração.
Merece registro o fato de que, no ano de 1976, o projeto que criou o CDIH, em seu item 6, intitulado “Plano de Trabalho” previa a implementação de medidas para a instalação de equipamentos e estrutura adequada. Uma década mais tarde, em 1986, no documento que apresentava a proposta de Reforma Administrativa da UFAC, constava, entre outros aspectos, que a “arquitetura do campus universitário não comporta as mínimas exigências para as instalações de um Centro de Documentação, tendo em vista que requer um planejamento minucioso com relação à sua localização, equipamentos, iluminação, temperatura e umidade, requisitos básicos para a conservação adequada de um patrimônio documental”.
No entanto, apesar da precisão e atualidade de tal diagnóstico e ainda do fato de que, após a promulgação da Constituição de 1988, terem sido promulgados uma série de atos e leis que passaram a regulamentar a guarda, conservação, preservação e o acesso público à documentação histórica e arquivística na sociedade brasileira, nada foi feito no sentido de resolver esse grave problema, constituindo-se não apenas em omissão dos administradores com relação às exigências jurídicas, mas em verdadeiro atentado a um dos mais ricos e expressivos patrimônios históricos da Amazônia acreana.
Entre os anos 1988-1992, a direção do CDIH, elaborou um documento preliminar que previa a construção de algumas dependências para a instalação dessa unidade, fato este que não foi concretizado e, apesar do CDIH ter passado a figurar como importante unidade de pesquisa com fontes documentais, viabilizando e/ou facilitando o trabalho dos professores que estavam desenvolvendo seus estudos de pós-graduação, essa unidade ficou mais quatro anos aguardando os devidos incentivos financeiros e humanos.
No quadriênio seguinte - 1992-1996 - a política empreendida pela então direção desse centro propôs a realização de projetos, estudos, pesquisas, publicações de vídeos, doações de acervos, exposições entre outras atividades, porém em termos de base física não houve nenhuma alteração, não obstante a formulação e discussão de um documento intitulado “Uma Proposta de Base Física para Centralização da Documentação na UFAC”.
Entre os anos 1997-2000, momento de formulação de um “Planejamento Estratégico” com a preocupação em construir uma “Universidade Amazônica”, no âmbito do CDIH continuaram os esforços no terreno da pesquisa e publicação de trabalhos, bem como uma incipiente e, de modo geral, equivocada proposta de informatização do acervo. Nesse período foi formulada uma primeira proposta de Regimento Interno, que visava dar maior autonomia e flexibilidade para esse centro de documentação. Findo esse período, no entanto, o CDIH continuava restrito a duas pequenas salas desprovidas de equipamentos e com um acervo fragmentado em razão dos sucessivos empréstimos de documentos a pesquisadores e interessados. Em uma espécie de “Relatório de Prestação de Contas da Gestão”, a direção do centro naquele contexto observava que “uma sucessão de intenções de mudar o quadro atual do CDIH, tem existido, porém permaneceu o contexto de exigüidade espacial” e a esperança de “construir um novo tempo (...) dando continuidade às mudanças que vêem se processando desde 1992”.
No período compreendido entre os anos 2001-2008, uma série de alterações foram sendo implementadas no CDIH, começando com a mudança para um local mais espaçoso para a guarda do Acervo Documental, um salão para pesquisa e atendimento à comunidade e uma sala intermediaria para os trabalhos das equipes técnicas e da direção do centro de documentação. Todo esse espaço físico foi climatizado e a documentação passou a receber um novo tipo de tratamento, principalmente, com a catalogação dos fundos documentais, digitalização de parte do acervo fotográfico, aquisição de novos equipamentos de informática e conservação do acervo, bem como a completa proibição de empréstimos e reprodução xerográfica de documentos. Uma das ações mais expressivas, nesse contexto, foi a abertura de concurso público e a contratação de uma arquivista para o CDIH.
Nesse período, além do trabalho com a higienização, reorganização e catalogação de fundos e coleções documentais, o acervo do CDIH foi ampliado com a significativa doação de uma diversa e importante série de documentos de movimentos estudantis entidades e de movimentos de trabalhadores rurais e urbanos do Acre e Sul do Amazonas, além de documentos pertencentes às famílias dos ex-governadores do Acre Território e Estado, Hugo Carneiro e José Augusto, bem como da família de Isaura Parente e do ex-prefeito de Rio Branco, Adauto Frota. Também merecem destaque as atividades de pesquisa institucionais, com especial atenção para a iniciação científica que propiciaram um grande acúmulo de fontes orais, escritas e visuais de diversos movimentos sociais, possibilitando grande ampliação da capacidade de pesquisa sobre a história recente do Acre, no interior desse importante centro de documentação.
Ressalte-se que, nesse último período, em função da aproximação de professores e alunos dos departamentos/cursos de história, geografia, letras, ciências sociais, educação/pedagogia, direito, ciências da natureza e do Parque Zoobotânico, o CDIH passou a abrigar um amplo leque de pesquisas e pesquisadores, desenvolvendo projetos institucionais e de iniciação científica e, ainda, incorporando-se ao Programa Regional de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Sul-Ocidental (PROREDES), fruto do convênio UFAC/Fundação Ford. Desse modo, o centro de documentação passou a figurar como um importante espaço de debates e produção acadêmica, realizando seminários, publicando artigos e trabalhos científicos, bem como participando de encontros e congressos em nível local, nacional e internacional. Tal expansão se deu em decorrência de que, na prática, o CDIH passou a se configurar como um local de encontro de profissionais e estudiosos de diferentes áreas do conhecimento, fortalecendo e mesmo criando grupos de pesquisa institucionais na UFAC.
Essas pesquisas possibilitaram a implantação de uma significativa base de dados (imagens, textos e depoimentos orais) sobre questões urbanas, relações campo-floresta-cidade, questões ambientais, desenvolvimento, trabalhadores, poder, memória, história, espaço, tempo, linguagens, deslocamentos populacionais, identidade, cultura, educação, degradação ambiental, fronteiras, população, entre outras.
Na atuação desses profissionais (alunos, professores e pesquisadores) orientando a prática acadêmica do Centro de Documentação e Informação Histórica da UFAC em uma fase de sua história de 32 anos, foi predominante a noção de colaborar na produção e fortalecimento da prática dos estudos (ensino-pesquisa-extensão) interdisciplinares.
Toda essa efervescência e intenso crescimento das ações de pesquisa e produzidas durante o processo Estatuinte, contando ainda com o apoio e parceria de equipes de pesquisa e assessoria do Museu Nacional, no ano de 2007, foi elaborada uma segunda proposta (a primeira é de 2002) de transformação do CDIH em Museu Universitário, considerando a necessidade histórica de fortalecer, ampliar e consolidar essa unidade, dando-lhe autonomia enquanto uma Unidade Integradora da UFAC. Uma das principais preocupações foi exatamente, com o Acervo Documental do CDIH, então composto por, aproximadamente, 350 mil documentos e centenas de artefatos da memória histórica e da cultura material das gentes da Amazônia Sul-Ocidental, dispostos por temas/áreas/linhas e distribuídos em diferentes, suportes, formatos e linhas de ação. Dentre esse acervo é possível destacar: cartas, relatórios, atas, testamentos, tratados, certidões, manuscritos, croquis, bilhetes, panfletos, notas, recortes, anais, anuários, dossiês, diários, anotações e relatos de viagens de campo, tabelas, quadros estatísticos, levantamentos sócio-econômicos, etnográficos e antropológicos, relatórios de estudos sobre impactos sócio-ambientais na Amazônia acreana, mapas e outros estudos cartográficos, relatos de estudos urbanos e populacionais, estudos de ambientes fluviais, florestais, fragmentos de imagens de estudos acerca da produção musical, teatro e literatura amazônica, relatórios e dados acerca da educação formal e dos projetos de educação popular (Projeto Seringueiro, educação indígena), transcrição de documentação oral de populações amazônicas, relatos e imagens de processos de lutas pela terra e formação dos sindicatos de trabalhadores rurais e urbanos no Acre, documentação sobre fronteiras e limites territoriais no Acre, imagens e publicações sobre a questão indígena no Acre/Purus/Juruá, banco de dados de imagens fotográficas (desde o final do século XIX) da história política, das populações, cidades e modos de vida da Amazônia acreana, livros raros e relatórios de governadores da Província do Amazonas e das prefeituras departamentais do Acre, banco de dados dos jornais e outras fontes hemerográficas produzidas ou em circulação no Acre e Sul do Amazonas desde o início do século XX.
Esse acervo e todas as ações dos grupos de pesquisa não poderiam mais permanecer na condição de uma unidade de apoio ou apêndice da reitoria, sem direito a uma dotação orçamentária própria e específica para suas ações e sem um corpo técnico (museólogo, arquivista, historiógrafos, secretária, entre outros) e ainda sem contar com uma estrutura jurídico-administrativa que lhe possibilitasse concorrer aos editais da área de patrimônio e cultura, ou sem vinculação com as ações nacionais do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) e mesmo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em ações pontuais de interesse da comunidade local. Desse modo, central a todas essas questões, a transformação do CDIH em Museu Universitário em conjunto com a Pinacoteca passou a ser uma exigência de primeira hora, pois a falta de pessoal técnico, infra-estrutura, equipamentos e pesquisas com acervos documentais em museus e centros de memória, funcionava como um impedimento e mesmo uma trava que impossibilitava o crescimento das ações e a melhoria do atendimento às diversas demandas internas – como a aquisição de equipamentos de microfilmagem, digitalização e consulta – e externas – com a ampliação das possibilidades de pesquisa e acesso às suas fontes documentais e peças museológicas por pesquisadoras e estudantes de diferentes níveis de ensino.
Com esse espírito, foi pensada a transformação desse centro de documentação em museu. Um museu com capacidade de conservar, preservar e ampliar os acervos existentes, mas, fundamentalmente, que com o papel de desenvolver pesquisas e ações de extensão à altura das exigências e dos desafios dos tempos presentes vivenciados por esta IFES, capazes de fortalecer e promover cursos de licenciatura e bacharelado, suas especializações e seus programas de pós-graduação strictu sensu.
Um museu com condições de abrigar o acervo documental do CDIH, a Pinacoteca, as peças e maquinários da história da instituição que ficaram “obsoletos” e foram armazenados em um galpão do Setor de Patrimônio. Posteriormente, no momento da tramitação e discussões do projeto de criação do museu no interior do Conselho Universitário, também foram integradas ao Museu Universitário as coleções paleontológicas e biológicas dos grupos e laboratórios de pesquisa que atuam no campo da história natural na UFAC.
Em uma abordagem sucinta, esse é um pouco o histórico da coleção de documentos históricos e da própria criação do Museu Universitário, em uma conjuntura histórica de mudanças e frente aos desafios históricos e responsabilidade da UFAC enquanto guardiã do maior acervo histórico e cultural, das memórias sociais e da memória histórica da Amazônia sul-ocidental, justificando a criação do Museu Universitário – Acervos Históricos, Artes (Pinacoteca) e História Natural, aprovado e criado pelo Conselho Universitário por intermédio da Resolução Consu, nº 26, de 30 de outubro de 2008.

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